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Exposição no MAC traz registro fotográfico da escravidão no Brasil



18/11/2013

Da Bahia de 1860 à Minas Gerais de 1890, passando pelo Rio de Janeiro e o Vale do Paraíba da década de 1880, o que alguns poderiam considerar um detalhe nos diz muito sobre o lugar social dos africanos e afrodescendentes no Brasil da segunda metade do século 19: os pés descalços dos trabalhadores negros nas cidades, no campo e nas minas de ferro e ouro. As imagens captadas por Marc Ferrez e outros fotógrafos na segunda metade do século 19 revelam ao visitante não só as más condições de trabalho de escravos, forros e ex-escravos, mas também a triste naturalização da escravidão no Brasil. Isso porque as fotografias que compõem a exposição Emancipação, Inclusão e Exclusão. Desafios do Passado e do Presente retratam cenas do cotidiano da época, fornecendo algumas pistas sobre as complexas relações sociais do período.

A mostra é composta por 74 fotos do acervo do Instituto Moreira Salles, assinadas por Ferrez, Victor Frond, George Leuzinger, Augusto Stahl, Alberto Henschel e outros, e fica em cartaz no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Cidade Universitária até o dia 29 de novembro. A curadoria é das professoras Lilia Schwarcz e Maria Helena Machado, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e por Sergio Burgi, coordenador de fotografia do instituto.

No texto introdutório da exposição, os curadores ressaltam que o registro fotográfico da escravidão no Brasil foi possível apenas pelo encontro de dois fatos: por um lado, a fotografia moderna chegou ao Brasil relativamente cedo, na década de 1980, tendo no imperador Pedro II um de seus maiores entusiastas; por outro, fomos o último país ocidental a acabar com o sistema de escravidão, com a sanção da Lei Áurea somente em 1888.

Algumas fotografias exibidas na mostra são originais de época, outras foram ampliadas para dar destaque a detalhes que de outra forma ficariam escondidos. “O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo plano. Se antes o espectador só podia ver a cena como um conjunto de motivos principais explícitos, e de detalhes mais ou menos invisíveis, hoje, com as novas técnicas, é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena”, diz o texto assinado pelos curadores.

Assim, o visitante encontra séries de registros do trabalho escravo nas plantações de café do Vale do Paraíba paulista e no Rio de Janeiro, onde homens, mulheres e crianças descalços trabalham nas diferentes etapas da colheita. A ampliação de uma foto assinada por Marc Ferrez, possivelmente datada de 1882, deixa claro que a pose de um grupo de jovens escravos para o fotógrafo no cafezal não esconde as expressões de profundo cansaço que estampam os rostos de duas crianças trabalhadoras.

As quitandeiras, os vendedores de rua e outros escravos de ganho em Salvador e no Rio também habitam a sala de exposição. Carregadores aparecem ao lado de uma senhora branca que desce da liteira. Ela, bem vestida e calçada; eles, com camisas claras, calças e casacos curtos escuros, cartolas e pés descalços. Mineradores sem sapatos e sem camisa trabalham na extração de ouro em Minas Gerais, sob o olhar vigilante de um feitor branco em suas botas, colete e chapéu ou capacete – isso já em 1888.

Há ainda entre as imagens que compõem a exposição cartes de visite – uma moda da época, que funcionava como uma espécie de “souvenir”, e as perturbadoras fotos de “tipos de negro”, nas quais os retratados são identificados simplesmente como “mina yoba”, “mina nagô” ou “negra tipo gegê”. Esses retratos eram frequentemente utilizados em livros de naturalistas para ilustrar suas teses racialistas – que propunham uma hierarquia de raças humanas – e tratavam as pessoas fotografadas mais como objetos de estudo sem vontade própria do que como sujeitos de suas histórias. Outras fotografias, menos perturbadoras, também se fazem presentes: são momentos de descanso de africanos e afrodescendentes, sejam eles na praça Castro Alves, em Salvador, ou na orla da Glória, no Rio de Janeiro.

A mostra fotográfica foi montada como parte das atividades de uma conferência de humanidades realizada na USP em duas fases, entre agosto e o início de novembro. O objetivo do evento foi discutir os processos históricos ligados à emancipação nas Américas e suas consequências, de forma a colaborar para um balanço dos 150 anos do fim da escravidão nos Estados Unidos e dos 125 anos da Lei Áurea no Brasil.

Serviço

Emancipação, Inclusão e Exclusão. Desafios do Passado e do Presente fica aberta para visitação no MAC Cidade Universitária (rua da Praça do Relógio, 160, tel. 3091-3039) de terça a domingo, das 10 às 18 horas, até 29 de novembro. A entrada é gratuita.

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