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Depois da Dolly



09/04/2007

O O escocês Keith Campbell, professor de desenvolvimento animal na Escola de Biociências da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, tornou-se conhecido mundialmente há dez anos. O motivo foi um artigo publicado na revista Nature, do qual foi um dos autores, que descrevia a primeira clonagem de um animal a partir de uma célula adulta – a ovelha Dolly.

Na semana passada, o biólogo esteve no Brasil, acompanhado de Paul Hagerman, professor da Universidade da Califórnia em Davis, especialista em bioquímica de ácidos nucléicos, com ênfase em doenças neurodegenerativas. A tarefa dos dois foi avaliar o Centro de Estudos do Genoma Humano, vinculado ao Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Como todos os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, o Centro do Genoma Humano é sistematicamente avaliado por especialistas brasileiros e estrangeiros. Campbell e Hagerman, no entanto, foram convidados pela coordenadora do centro, Mayana Zatz, para uma consultoria especial, com o objetivo de apontar gargalos que, uma vez superados, permitam levar o centro brasileiro a um papel de protagonista no cenário científico mundial.

Para Campbell, o ponto forte do Cepid é a qualidade dos recursos humanos. O principal obstáculo identificado foram dificuldades alfandegárias encontradas na importação dos reagentes utilizados nos experimentos. A coordenadora do Cepid concorda com a avaliação: “Às vezes, os trâmites para a importação de um reagente levam meses. O atraso ocorre por problemas alfandegários e, eventualmente, por problemas técnicos para acondicionar o material congelado”, explicou Mayana Zatz à Agência FAPESP.

No Centro do Genoma Humano, em São Paulo, Campbell falou à Agência FAPESP sobre a avaliação e sobre o panorama atual da clonagem.

Agência FAPESP - A sua visita teve o objetivo exclusivo de avaliar o Centro de Estudos do Genoma Humano ou há também perspectivas de cooperação em trabalhos específicos?
Keith Campbell - Viemos para fazer essa revisão, mas estou envolvido com o centro há quatro anos, quando vim ao Brasil para participar de um programa de educação de crianças no Recife. Acabei visitando o Centro do Genoma Humano, uma vez que o trabalho ali realizado tem grande conexão com o nosso. Já naquela época fui consultado sobre a possibilidade de participar dessa avaliação. Mas não tenho dúvidas de que há muitas possibilidades de cooperação, sobretudo na área de transplante de células-tronco. Temos perspectivas de fazer intercâmbio para treinamento e pesquisa científica.

Agência FAPESP - Como foi feita a avaliação?
Campbell - Trata-se de uma discussão sobre os problemas e qualidades do centro. Não é uma avaliação crítica, viemos aqui para ajudar e apresentar, digamos assim, uma consultoria sobre o que pode ser feito para melhorar.

Agência FAPESP - E o qual foi a conclusão?
Campbell - Alguns dos principais problemas do centro estão ligados à infra-estrutura, sobretudo por causa das dificuldades alfandegárias para importar reagentes utilizados nos experimentos. O planejamento do trabalho fica muito mais difícil por não se saber quando determinado reagente vai chegar – especialmente porque grande parte deles tem vida útil bem curta. Então, às vezes, é preciso parar a pesquisa por falta de um reagente e não se pode fazer isso porque os outros reagentes estão lá esperando e serão perdidos.

Agência FAPESP - Essa dificuldade prejudica a agilidade para responder a demandas científicas?
Campbell - Sim. No Reino Unido ficamos muito impacientes quando precisamos esperar 48 horas para ter acesso a um componente da pesquisa de que precisamos em 24 horas. Mas, no Brasil, é comum ouvir relatos de cientistas que esperaram três meses ou mais por um reagente. Isso é um problema que requer um trabalho de desburocratização por parte do governo.

Agência FAPESP - E quanto aos recursos humanos do centro paulista?
Campbell - Essa é a melhor parte. O que vi aqui foi um grupo muito bem coordenado que faz um trabalho excelente, de nível internacional, e produz ciência de alta relevância.

Agência FAPESP - Que outros pontos se destacaram na avaliação dos senhores?
Campbell - Há muita boa ciência sendo feita por aqui. Além de bastante genética humana, como era de se esperar, também há um bom trabalho com modelos animais. Os programas educacionais são excepcionais, o mesmo podendo ser dito de um programa importante de aconselhamento genético. Todo o conjunto do programa é muito bom, com a estrutura em vertentes de pesquisa, inovação e difusão.

Agência FAPESP - Qual é a intenção final da avaliação? Isto é, o que poderá mudar se houver melhorias em infra-estrutura?
Campbell - O que fizemos foi sugerir maneiras para o Centro do Genoma Humano se tornar mais conhecido no palco mundial. Seus pesquisadores já estão fazendo um ótimo trabalho com isso mas, agora, precisam estar preparados para reagir mais rapidamente às mudanças no mundo científico.

Agência FAPESP - O senhor continua trabalhando principalmente com clonagem animal?
Campbell - Sou professor de desenvolvimento animal na Escola de Biociências da Universidade de Nottingham. Meu trabalho também envolve a comunicação com o público e a administração do departamento. Atualmente, estou orientando cinco trabalhos de pós-doutorado e nove estudantes de pós-graduação na área de clonagem de mamíferos.

Agência FAPESP - Quais foram as oportunidades científicas abertas pela clonagem?
Campbell - A clonagem em si trouxe diversas oportunidades: possibilitou muita pesquisa sobre especialização celular e uma variedade de aplicações potenciais para terapias celulares. O outro aspecto, a clonagem animal, teve restrições em alguns aspectos por conta de problemas éticos e religiosos, além da ação dos que são contrários a qualquer tipo de modificação genética.

Agência FAPESP - Esses entraves empurraram para longe o horizonte dos avanços na clonagem animal?
Campbell - Sim, se pensarmos nos países europeus e americanos. Mas acho que o futuro da clonagem animal e modificação genética está nas mãos dos países asiáticos. Isso é positivo, porque a clonagem traz boas oportunidades em terapias humanas, medicina e modificações em animais para pecuária.

Agência FAPESP - E quanto à clonagem terapêutica? Que avanços existem e quais são ainda esperados? Campbell - A clonagem terapêutica oferece uma vantagem para as terapias com células-tronco. Quando pudermos desenvolver essas alternativas, como já há gente fazendo, a capacidade para usar células-tronco personalizadas trará vantagens, porque as células não serão mais rejeitadas. O problema é que será muito difícil fazer clonagem terapêutica. Não devido às pressões éticas e religiosas, mas por conta do minúsculo e insuficiente número de óvulos humanos de qualidade disponível para continuar os trabalhos. O que a clonagem fez foi fornecer – com muita pesquisa e buscando rotas alternativas – a produção de células-tronco embrionárias. Ou seja, produzir células para transplante sem precisar de um embrião para fazer células-tronco embrionárias. Podemos continuar a pesquisa em clonagem e em vários aspectos do desenvolvimento do embrião e do crescimento das células-tronco embrionárias.

Agência FAPESP - Os obstáculos são mais técnicos que morais?
Campbell - Há alguns obstáculos para a clonagem terapêutica. Um deles tem sido a atitude do público. Muita gente ainda teme que se a clonagem terapêutica for feita, mais cedo ou mais tarde teremos a reprodutiva. Eu não acredito nisso. Em segundo lugar, muitos são contrários ao uso de embriões em qualquer que seja a pesquisa. Acho que isso diminui aos poucos. Mas, infelizmente, o que nos impede realmente de chegar ao objetivo é a falta de habilidade que ainda temos para obter materiais humanos e controlar os processos nos experimentos. Acho que se continuarmos as pesquisas em clonagem animal poderemos aprender muitas coisas novas que ajudarão mais tarde nesse sentido.

Agência FAPESP - O que detém os avanços em termos de técnicas para controle eficiente da clonagem?
Campbell - Ainda não conseguimos um eficiente controle da clonagem. Há muito trabalho pela frente. Mas a pesquisa em clonagem ensina muito sobre o desenvolvimento primário dos embriões de doenças humanas e de desordens genéticas. E também sobre como os genes podem ser regulados por influências externas – o que chamamos de epigenética. Isso é muito importante para uma série de doenças e, estudando tudo isso, poderemos melhorar a eficiência da clonagem.

Agência FAPESP - Qual é a sua opinião sobre clonagem reprodutiva?
Campbell - A maioria dos cientistas – eu inclusive – é totalmente contrária à clonagem para fins reprodutivos. Eu me oponho completamente porque não vejo razões médicas para isso. Há muitas e muitas crianças no planeta que precisam de adoção, que perderam os pais ou que foram rejeitadas. Em termos de reproduzir um indivíduo, simplesmente não vejo sentido. Muita gente acha que alguém que perdeu um filho poderia ter a chance de reproduzi-lo. Acho que a conseqüência disso seria apenas produzir problemas psicológicos infinitos e imprevisíveis. É uma péssima idéia. Mesmo se pudéssemos fazer esse tipo de clonagem, não estaríamos reproduzindo uma pessoa. Poderíamos no máximo substituí-la por outra fisicamente idêntica. A personalidade seria sempre diferente, uma vez que ela não é determinada por fatores genéticos apenas, mas por fatores sociais, econômicos, naturais e por influências do ambiente.

Fonte: Agência FAPESP - por Fábio de Castro

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