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A solução está na floresta



11/05/2007

Por Fábio de Castro

Diminuir o desmatamento de florestas tropicais pode ser a maneira mais barata para reduzir os gases de efeito estufa e estabilizar o aquecimento global, de acordo com artigo escrito por um grupo internacional de cientistas e divulgado nesta quinta-feira (10/5) no site da revista Science.

Segundo o texto – publicado na seção Policy Forum, que recomenda estudos que podem ser utilizados em políticas públicas –, se as taxas de desmatamento forem reduzidas pela metade até 2050 e mantiverem o nível até 2100 será possível eliminar 50 bilhões de toneladas de carbono, o que equivale a mais de 10% dos cortes necessários para manter as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono em 450 partes por milhão (ppm).

Uma concentração maior do que essa, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), levaria o aquecimento para uma margem acima de 2ºC, causando uma catástrofe ambiental em escala global.

No artigo, os pesquisadores utilizaram dados reunidos pelo IPCC para avaliar o projeto Reduzindo Emissões do Desmatamento (RED), lançado pelas Nações Unidas para investigar durante dois anos políticas e incentivos que os países em desenvolvimento possam adotar de modo a frear o desmatamento de florestas tropicais.

Os pesquisadores lembram que o desmatamento de florestas tropicais causou cerca de 20% das emissões de gases estufa de origem humana na década de 1990. Além disso, com o desmatamento, perde-se a capacidade de seqüestro de carbono, o que aumentaria ainda mais as concentrações atmosféricas.

Para um dos autores do artigo, Carlos Nobre, pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o texto resume o que tem sido afirmado nos últimos anos pelos cientistas que estudam mudanças climáticas.

“É evidente que a solução de longo prazo é a descarbonização. Mas, no intervalo das próximas décadas, a redução de emissões tem que ser considerada. O artigo mostra que, graças ao IPCC, a revista entendeu o recado que temos passado nos últimos anos”, disse Nobre à Agência FAPESP.

Benefícios podem ser maiores

O artigo, assinado também por cientistas da Austrália, do Canadá, dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido, ressalta que é possível reduzir as emissões sem impacto econômico. “Ocorre o contrário, pois há ganho econômico para todo o sistema se houver melhor utilização das florestas tropicais”, disse.

Nobre e colegas destacam que o RED deverá fazer progressos, uma vez que vários países em desenvolvimento com vastas áreas florestais procuraram o projeto e alguns começaram a reduzir o desmatamento com dois tipos de projeto de baixo custo: redução de queimadas acidentais e redução do desmatamento em áreas que não serão utilizadas para agricultura.

“É evidente, no entanto, que os países ricos também precisam fazer parte da solução”, disse Nobre. Segundo ele, não seria possível que os países em desenvolvimento realizassem a redução do desmatamento sem nenhum apoio financeiro. “Isso tem que ser visto como um esforço mundial e parte das reduções precisam ser financiadas pelos países ricos.”

O artigo agora publicado destaca que o preço do carbono no mercado é suficiente para justificar a redução do desmatamento como alternativa econômica viável. “Falta agora incluir na Convenção do Clima esse mecanismo de incentivo para redução do desmatamento. Os investimentos externos seriam muito importantes para buscar um novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia”, afirmou.

Segundo Nobre, os cálculos apresentados no artigo incluem apenas a redução do carbono causada pelas emissões, deixando de lado a diminuição que seria garantida pelo seqüestro de carbono realizado pelas florestas, caso elas sejam menos desmatadas. Isso significa que os benefícios de uma redução de 50% no desmatamento até 2050 podem ser ainda maiores que a eliminação de 50 bilhões de toneladas de carbono.

“Não temos, ainda, números confiáveis para determinar o potencial do sumidouro de carbono das florestas que seriam poupadas com a redução do desmatamento, por isso não os incluímos no cálculo. Mas, qualitativamente, podemos afirmar que haveria ainda essa redução de carbono”, disse.

A análise ressalta que, durante a década de 1990, o desmatamento tropical foi responsável por lançar na atmosfera cerca de 1,5 bilhão de toneladas de carbono anualmente – o equivalente a 20% das emissões antropogênicas de gases causadores do efeito estufa.

Sem a implementação de políticas efetivas para redução do desmatamento, dizem os cientistas, a destruição das florestas tropicais deverá lançar uma quantidade adicional de 87 bilhões a 130 bilhões de toneladas de carbono até 2100 – o equivalente à emissão de carbono de mais de uma década das emissões globais atuais causadas por combustíveis fósseis.

Segundo Nobre e colegas, frear o desmatamento tropical tem, portanto, potencial para contribuir substancialmente para as reduções globais de emissões de carbono e é provável que as florestas tropicais persistam com as inevitáveis mudanças climáticas das próximas décadas. Por isso, concluem os cientistas, o programa Reduzindo Emissões do Desmatamento pode ter uma importante contribuição para a diminuição do aquecimento global.

O artigo Tropical Forests, Climate Change and Climate Policy, de Carlos Nobre e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org, na seção Science Express.

Agência FAPESP

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