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A arte como resistência cultural dos índios Suruí



09/05/2014

Fonte: Daniel Patire / Unesp

"A nossa presença em uma mesa redonda em plena Universidade mostra a valorização e a importância de nossa cultura. Mas isso não abranda a luta diária pela sobrevivência dos povos indígenas no Brasil", discursou Uraan Anderson Suruí, professor indígena e representante do povo Paiter Suruí. localizado no estado de Rondônia. Ele falou a uma platéia formada por estudantes de graduação e pós-graduação em Artes do Instituto de Artes (IA), Câmpus de São Paulo, presentes ao Seminário Internacional de Arte Indígena.

O evento, realizado nesta quarta-feira, 7 de maio, no Instituto, buscou debater o resgate das artes indígenas dentro da produção artística contemporânea, explicitando a sua organicidade e elementos estéticos. Organizado pelo grupo de pesquisa Panorama da Cerâmica Latino-Americana Tradicional e Contemporânea da Unesp, o seminário contou com a presença, além de Uraan, das ceramistas suruís Pamatoa e Katiani Suruí, do artista e doutorando pelo IA Jean-Jacques Vidal, da antropóloga Betty Mindlin, da musicista Marlui Miranda, e da artista plástica alemã Ellen Slergers.

A presença de Pamatoa, que pela primeira vez sai de sua aldeia para falar da sua produção em cerâmica, dá ao encontro um caráter único dessa produção, envolvida por símbolos e espiritualidade, de acordo com Lalada Dalglish, professora do Instituto e coordenadora do grupo de pesquisa. "A beleza dos potes, panelas e outros utensílios se dá, sobretudo, pelo ritual que está imerso o próprio fazer da cerâmica, e como essas obras de arte são parte da vida cotidiana deles", reforçou a professora.

Contudo, segundo Uraan, é o caráter ritualístico da produção cerâmica do seu povo que não permitiria, a alguns anos atrás, os registros fotográficos ou em vídeo, e mesmo o debate sobre na aldeia, e muito menos na academia. "Acreditamos que o diálogos seja a única forma de continuarmos existindo e perpetuando nossa cultura", ressaltou. "E essa é um oportunidade para conhecermos o outro, o não índio. E, assim, saber o quanto somos importantes no nosso próprio lugar."

A arte das mulheres -A produção de potes, panelas e peças ritualísticas em cerâmica é um trabalho exclusivamente feminino entre os Suruís. "Este trabalho eu aprendi com minha mãe, minha avó. E estou passando para minhas filhas e netas. Se não existisse antepassados eu não existiria", disse Pamatoa.

A cerâmica feita por esse povo indígena é a ligação entre passado e presente, é a continuidade cultural e também uma resistência ao encontro com a civilização, para a antropóloga Betty. O primeiro contato dos Suruís com o "não-índio" aconteceu em 1969. Muitos foram mortos pelas doenças trazidas pelos civilizados e outros foram assassinados pelos colonizadores, que ganhavam terras do governo militar para "civilizar e ocupar o estado de Rondônia. "E Pamatoa ainda é de uma geração que vivia em isolamento na floresta. Hoje, eles vivem em uma aldeia, a linha 14, que era um acampamento da Funai (Fundação Nacional do Índio). E a cerâmica e outras artes são a forma da resistência a essas mudanças", relatou Betty.

Em seus estudos de mestrado e doutorado, Vidal analisou peças feitas na década de 1970, que estão no acervo da antropóloga, que convive com os índios desde 1978, com peças feitas atualmente. "Não há alteração nenhuma nem na forma, cores, ou mesmo funções entre elas. É uma continuação, uma identidade firmada daquela cultura", ressaltou.

As peças são lisas, sem nenhuma gravura ou grafismos. Polidas com pedras antes das três queimas, panelas, cuias, jarros, potes parecem esmaltados. De acordo com o artista e pós-graduando, há uma grande preocupação com pureza do material de fabricação e também com a esterilização dos utensílios. Durante a queima,a cerâmica recebe um tratamento com uma calda feita com a entrecasca da árvore de Jequitibá, suco com propriedades fungicídas.

E a busca pela pureza do material para confeccionar as peças, a argila, se dá desde os preparos para a captação dele na floresta.A coleta da argila só pode ser feita por mulheres que não estão grávidas, menstruadas e que não tiveram relações sexuais por um certo período. Na floresta, é o espírito do caranguejo que as guia até o ponto de coleta do melhor material. Em todo o momento, as argilas retiradas do solo são colocadas sobre trançados de folhas para não serem contaminadas por areia ou outro material orgânico. Para os Suruís, é essa pureza que vai garantir que as peças não se quebrem em nenhuma das fases de sua produção.

Para fazer sua pesquisa etnográfica, Vidal precisou da aprovação dos chefes e pajés da tribo. "Como o trabalho é feito apenas por mulheres, e a espiritualidade é intrínseca ao fazer a cerâmica, os homens não podem acompanhar e muito menos registrar esse processo", explicou. "Assim, só com a autorização dos chefes indígenas é que a pesquisa pode ser feita."

Estéticas -As peças produzidas pelos índios Suruís foram expostas em São Paulo entre as peças elaboradas por artistas contemporâneos alemães, na Galeria Estemp. Chamada "Sei que nada sei", a exposição integrava no mesmo espaço a cerâmica, as cestarias, colares indígenas e fotos, peças, conceitos feitos por esses artistas. A exposição ficou aberta ao público ente 13 de novembro a 14 de dezembro de 2013.

Segundo a idealizadora da galeria e curadora da exposição, Ellen Slergers, a mostra teve a intenção de derrubar as barreiras e preconceitos que dividem a arte em popular, indígena ou contemporânea. "Todas as peças seguem uma estética chamada minimalista. Nós artistas ditos contemporâneos buscamos essa estética que para eles é tão natural", sentenciou.

Em continuação ao projeto da exposição, a Galeria Estemp promove um encontro aberto entre Ellen e os Suruís na montagem de uma nova mostra da cerâmica indígena. O evento será realizado neste sábado, 10 de maio, a partir das 11 horas da manhã, em São Paulo - capital.

Serviço: Encontro aberto no Estemp
Aberto ao público
Participantes: Ellen Slergers, Pamatoa, Katiani e Uraan Suruí
Data: 10 de maio de 2014
Horário: a partir das 11 horas
Local: Galeria Estemp
Endereço: Rua Maria Carolina, 705 - Pinheiros - São Paulo

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