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“Reforma política terá que envolver toda a USP”, diz novo reitor



20/01/2014

Fonte: Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Nomeado novo reitor da USP pelo governador Geraldo Alckmin no final de dezembro, o professor Marco Antonio Zago toma posse neste sábado, dia 25, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes.

A chapa formada por Zago e pelo vice-reitor Vahan Agopyan, professor da Escola Politécnica e pró-reitor de Pós-Graduação da USP na gestão 2010-2014, foi a mais votada na eleição do dia 19 de dezembro, obtendo 1.206 votos na Assembleia Universitária, numa eleição que se deu em turno único e com um colégio eleitoral ampliado em relação aos pleitos anteriores. 
A chapa já havia obtido a preferência da comunidade numa consulta, também realizada pela primeira vez, em que alunos, professores e funcionários puderam votar.

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Zago obteve mestrado e doutorado na mesma faculdade e fez pós-doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido. É professor titular da USP desde 1990 e, entre outros cargos que ocupou, foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) entre 2007 e 2010, ano em que assumiu a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

Nesta entrevista, Marco Antonio Zago ressalta – como já anunciava no programa de sua chapa, Todos pela USP – que aprofundar a democratização e a autonomia universitária e reformar o ensino de graduação serão metas prioritárias de sua gestão.

Jornal da USP – O programa da sua chapa menciona democratização e autonomia da Universidade como temas fundamentais para a sua gestão. Como o senhor imagina caminhar nessa direção?

Marco Antonio Zago – Essa talvez seja a questão política mais importante da Universidade, e mesmo o ritual e a sequência das medidas terão que ser negociados passo a passo. Não acredito que seja interessante chegar com uma agenda pronta. A título de exemplo: muitos falam em Estatuinte na USP, mas cada um tem uma Estatuinte diferente na cabeça. Há desde aqueles que imaginam um processo em que o Conselho Universitário (Co) se extingue, e aí as 110 mil pessoas da comunidade escolhem como a Universidade vai funcionar, até os que acham que teremos uma assembleia composta com números equivalentes de pessoas das diferentes categorias, ou quem defenda que o próprio Co pode reduzir o quórum para deliberações de mudanças estatutárias. Esse exemplo mostra que teremos que construir um processo pelas vias nas quais a maioria das diferentes categorias concorde – mas uma coisa da qual não podemos abrir mão é que, qualquer que seja o caminho para a reforma da governança da Universidade, temos que garantir a mais ampla participação possível. Não podemos nos resumir a uma disputa das lideranças, como vem ocorrendo com grande parte das questões tratadas ultimamente, inclusive no Co. Se falamos de estudantes, falamos da massa de estudantes, o mesmo com os docentes, e assim por diante. Uma reforma que não envolva um grupo considerável não teria legitimidade.

JUSP – É um processo que tende a ser complexo, não é?

Zago – Isso provavelmente tomará tempo, porque não se resolve facilmente. Ao mesmo tempo, é necessário tocar a Universidade segundo regras mais modernas, começando a fazer mudanças naquilo em que a maioria já concorde. Não podemos ficar quatro anos discutindo a reforma. Aquilo que for essencial terá que tramitar e ser resolvido. Não vamos aguardar uma possível reforma do Estatuto ou do Regimento para colocar em marcha, por exemplo, uma mudança na graduação, um de nossos temas prioritários. A reforma política terá que ser feita de uma maneira que envolva a Universidade toda, seja consensual e dê oportunidade para todas as manifestações de diversidade de opinião – mas precisa ter início, meio e fim.

JUSP – De que maneira o Co, as Congregações e os Conselhos Centrais entram nesse processo?

Zago – Há temas em que todos percebemos que devem haver mudanças rapidamente. O Co precisa funcionar de uma maneira mais dinâmica, precisa ter maior participação nas decisões da Universidade. Algumas categorias se sentem muito sub-representadas e, ao mesmo tempo, se cada membro resolvesse falar os seus cinco minutos, as reuniões não teriam fim. Como consequência, os assuntos que passam pelo Co são muito limitados. Todo esse funcionamento tem que ser revisto para que o Co possa reassumir seu papel de principal colegiado da instituição. Para as Congregações e Conselhos, teremos que examinar como cada um pode funcionar melhor, mas não precisamos fazer um pacote único.

JUSP – Nas últimas gestões, várias vezes os debates políticos da USP acabaram descambando para conflitos, às vezes até com uso de violência. O senhor fala em seu programa da necessidade de restabelecer a coesão interna da Universidade. A sua intenção é valorizar o diálogo no sentido de prevenir esses conflitos?

Zago – De modo geral, tendo a ver esses conflitos como um sintoma da falta de diálogo. Quando o conflito ocorre, o diálogo se torna pouco produtivo, porque se centra em solução de crises agudas, em negociações de pequenos ganhos ou perdas. Isso lembra a situação em que você demanda uma coisa muito vultosa, cria um impasse e no final obtém um pequeno ganho. Essa é a típica estratégia que dominou, por exemplo, toda a vida sindical dos anos 1950 até 90. A tentativa de trazer essa estratégia para dentro da Universidade é perversa, pois desconsidera o fato central de que somos uma instituição que deve viver ao redor do diálogo e da discordância de ideias, porque da discussão de ideias discordantes validam-se as ideias melhores. Todo o processo universitário – até a atividade experimental num laboratório – é centrado nessa visão e parte desse princípio.
Quando falamos da vida universitária, falamos essencialmente da construção contínua de um movimento que ajuda a sociedade a evoluir, e por isso a participação dos estudantes é fundamental. Mas, repito, estamos falando da grande massa dos estudantes, que vieram à Universidade principalmente para serem treinados nesse sistema de tese, antítese e síntese. Não podemos falar que a disputa que ocorre entre lideranças estudantis, lideranças sindicais e lideranças da Universidade seja a disputa democrática e sadia que precisa ser restabelecida. Quando excluímos a grande massa desse diálogo permanente, já estamos numa situação de doença. Sei que é muito ambicioso, mas de fato o que precisamos reconstituir é o verdadeiro diálogo acadêmico, que ocorre continuamente em todos os níveis e que trata das questões do conhecimento científico, da vida universitária e da vida política do País.
 
 

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